sexta-feira, 30 de novembro de 2007

ERIC CLAPTON: Layla


Em 1968, John, Paul, George e Ringo construíam na Abbey Road o mais impressionante disco que os Beatles puderam trazer a este mundo (certo, os puristas vão dizer que Sargent Pepers é o melhor, mas eu ainda fico com o White Album). George trouxe Eric Clapton para tocar com eles e os dois pariram While My Guitar Gently Weeps, de longe a melhor composição que já ouvi num disco daqueles quatro sujeitos fantásticos.

Enquanto trabalhavam, algo inesperado aconteceu. Eric apaixonou-se por Pattie Boyd, mulher de George, dessas paixões fulminantes, dolorosas, vergonhosas. Desses amores que levam um homem ao fundo do poço. E Pattie, vivendo uma vida de segundo plano, freqüentemente afastada por George e seu amor devoto à cultura hindu, apaixonou-se por ele.

Dessa paixão arredia e traidora nasceu a canção Layla; visceral, forte, poderosa e cheia de um amor carnal e pecaminoso. Você pode sentir a raiva de Eric tocando aquele solo infernal que construiu para a abertura da canção, que foi gravada para o álbum da então nova banda do guitarrista, Derek and The Dominos, lançado no mesmo ano da morte de Jimi Hendrix e Duane Alman.

Eric implora, dolorosamente, na terceira estrofe: “Vamos fazer o melhor dessa situação, antes que eu finalmente enlouqueça. E, por favor, não diga que nunca encontraremos um meio e que todo o meu amor é em vão... Layla, você me tem de joelhos”.

Layla é a celebração do amor impossível e pecaminoso, nascido renegado porque contradiz não apenas os conceitos puritanos, mas também a noção de lealdade e amizade entre homens que se consideravam irmãos. Para os canalhas de plantão, talvez não seja tão claro o fato de Eric e Pattie terem se sentido como párias do universo, mas se você ouvir outras canções que Clapton gravou naquele mesmo disco, vai entender a profundidade da dor que aquele sentimento causou. Experimente ouvir Have You Ever Loved a Woman logo depois de Layla e isso vai ficar bem nítido.

O fim da música traz uma longa e calma melodia que se contrapõe ao arranjo infernalmente potente e belo que Eric Clapton criu para o início. Esse fim foi composto por Jim Gordon, parceiro de Eric na música, e alguns críticos o detestaram. Eles disseram que Layla seria perfeita sem ele. Discordo. Entendo que toda a canção, até aquele ponto, é um pedido (de joelhos!) de Eric para que Pattie aceite que se amam e façam alguma coisa de bom com esse sentimento poderoso e avassalador. A parte final é a aceitação de Pattie, travestida de Layla. É o momento em que os dois sucumbem ao amor.

Amo essa música, que não é bem um blues, mas traz todos os elementos dos melhores temas que um deveria ter:


What will you do when you get lonely
With nobody waiting by your side
You've been running and hiding much too long,
You know it's just your foolish pride.
Layla, you got me on my knees.
Layla, I'm begging darling please.
Layla, darling won't you ease my worried mind.


Tried to give you consolation,
Your old man won't let you down
Like a fool, I fell in love with you,
Turned the whole world upside down
Layla, you got me on my knees.
Layla, I'm begging darling please.
Layla, darling won't you ease my worried mind.


Let's make the best of the situation
Before I fin'lly go insane.
Please don't say we'll never find a way
And tell me all my loves in vain
Layla, you got me on my knees.
Layla, I'm begging darling please.
Layla, darling won't you ease my worried mind.



PS: Eric e Pattie acabaram vivendo juntos, alguns anos depois.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

MÚSICA NOVA: As bicicletas assassinas

À semelhança de Delirium Tremens do primeiro disco, algumas pessoas vão achar que o infeliz que escreveu essa letra estava bêbado. Não é o caso.

Quem já não teve um desses sonhos estranhos, em que nada parece se encaixar ou fazer sentido? Aqueles sonhos em que você voa devagar, meio que nadando no ar, e acaba caindo... Ou aqueles em que você acha que está sendo perseguido...

As Bicicletas Assassinas é um blues rápido, num tom alto e desesperado, com riff e batida de marcha acelerada. E a historinha é um daqueles sonhos...

Eu já não vejo bicicletas
Assentadas nas paredes do meu quarto
Antigamente eu dormia
E elas ficavam vigiando o meu sono
E tramavam em silêncio
A minha morte prematura
Mas eu sabia!

E eu fugia pras colinas
Me abrigava entre os fungos da montanha
Os meus olhos estalados vigiavam
Os caminhos mais estreitos
E se eu visse o perigo se achegando
E montava o meu porco voador

E escaparia do destino
Entre as nuvens coloridas
Gaivotas de asas curtas
E pinturas surreais
Eu mergulhava pelos vales
E penhascos incrustados nos sinais
E avançava o vermelho
Feito um carro em desespero pedalando os meus pedais

Eu escalei fachos de luz
Eu mergulhei em lagos crus
Eu me escondi entre os anuns
E me encharquei de velhos runs
E acho que hoje eu sou livre
Eu despistei as bicicletas do meu sonho
E agora eu durmo tranqüilo
Pois não há mais bicicletas nos meus ombros

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Sobre gostar do blues, até depois que eu não estiver mais aqui


Engraçado como só vim a conhecer de verdade o blues quando estava na faculdade. Já devia ter 17 anos, se me lembro. Não vou cair no clichê de dizer que foi amor à primeira vista, mas o desgraçado do som virou minha noção de música de cabeça para baixo, com toda a sua simplicidade e clareza. Era uma música que só trazia três notas, repetidas na pentatônica linear e cantada em berros bêbados que podiam ser uma adoração, uma reza, uma praga ou só um lamento. Amei o blues desde a sua primeira nota.


Ok, aí está o clichê...

O Zero Ora! só surgiu em 2003 e a maioria dos amigos bem sabe como foi que começamos (e o porquê do nome - rsrs). Tenho ouvido de tudo um pouco nos últimos anos. Algumas coisas eu até gosto, até ouço outros tons, mas é para o blues que sempre retorno no fim do dia. Para as notas simples e os versos perdidos de canções como Feels Like Rain, Have You Ever Loved a Woman, The Sky Is Crying, Love In Vain...


Entendo e respeito o gosto da maioria das pessoas que preferem outros estilos e ritmos. Mas minha trilha sonora particular é o blues. Na medida em que vivemos, acabamos escolhendo essa trilha para os nossos minutos, horas, dias. Pelo menos é o que eu carrego comigo. Assim, quando eu morrer, espero que alguém monte e toque no enterro um cd com a lista das minhas canções preferidas. Vocês vão ouvir algumas coisas diferentes, muitos clássicos (do velho rock'n'roll, meu bem) como Layla, While my Guittar Gently Weeps, Bohemian Rhapsody... Mas o repertório principal vai ser de velhos blues, de todos os temas! Amores perdidos, vidas sem rumo, botecos sujos, trens que partiram, desejos secretos, mulheres fatais, cachorros sem dono.


Aliás, eu poderia começar uma lista agora, pra facilitar a vida de quem vai ter o trabalho de montar o CD - ou sei lá que tipo de mídia que vai existir daqui a 102 anos (que é a partir de quando pretendo bater as botas). Ou talvez ainda esteja cedo. Aliás, espero que ninguém ligue se eu colocar algumas das nossas próprias músicas neste set list.


Seja como for, não vai tocar blues só no meu funeral. Vai tocar a vida toda, porque, como disse o velho João Silva, em Baby Blue, meu primeiro livro: o blues é o que sobrou de um homem miseravelmente só e angustiado, que perdeu todo o dinheiro e honra para as mulheres fáceis, a bebida e o jogo. Mas o blues, ele disse, não é sinônimo de sua perdição, é a sua redenção, é o que faz com que ele se levante, dia após dia, reunindo forças que não tem, mesmo sabendo que o trabalho injusto quer arrancar seu couro, que ama uma mulher que jamais poderá ter e que o dinheiro pouco que tem não vai dar pra chegar no fim do mês. O blues sussurra em seu ouvido, quando ele baixa a cabeça e pensa em desistir: levante-se homem, porque não existe nada impossível nesse mundo. E ele sorri e segue em frente.


Eu amo esse desgraçado desse Blues!