quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Sobre gostar do blues, até depois que eu não estiver mais aqui


Engraçado como só vim a conhecer de verdade o blues quando estava na faculdade. Já devia ter 17 anos, se me lembro. Não vou cair no clichê de dizer que foi amor à primeira vista, mas o desgraçado do som virou minha noção de música de cabeça para baixo, com toda a sua simplicidade e clareza. Era uma música que só trazia três notas, repetidas na pentatônica linear e cantada em berros bêbados que podiam ser uma adoração, uma reza, uma praga ou só um lamento. Amei o blues desde a sua primeira nota.


Ok, aí está o clichê...

O Zero Ora! só surgiu em 2003 e a maioria dos amigos bem sabe como foi que começamos (e o porquê do nome - rsrs). Tenho ouvido de tudo um pouco nos últimos anos. Algumas coisas eu até gosto, até ouço outros tons, mas é para o blues que sempre retorno no fim do dia. Para as notas simples e os versos perdidos de canções como Feels Like Rain, Have You Ever Loved a Woman, The Sky Is Crying, Love In Vain...


Entendo e respeito o gosto da maioria das pessoas que preferem outros estilos e ritmos. Mas minha trilha sonora particular é o blues. Na medida em que vivemos, acabamos escolhendo essa trilha para os nossos minutos, horas, dias. Pelo menos é o que eu carrego comigo. Assim, quando eu morrer, espero que alguém monte e toque no enterro um cd com a lista das minhas canções preferidas. Vocês vão ouvir algumas coisas diferentes, muitos clássicos (do velho rock'n'roll, meu bem) como Layla, While my Guittar Gently Weeps, Bohemian Rhapsody... Mas o repertório principal vai ser de velhos blues, de todos os temas! Amores perdidos, vidas sem rumo, botecos sujos, trens que partiram, desejos secretos, mulheres fatais, cachorros sem dono.


Aliás, eu poderia começar uma lista agora, pra facilitar a vida de quem vai ter o trabalho de montar o CD - ou sei lá que tipo de mídia que vai existir daqui a 102 anos (que é a partir de quando pretendo bater as botas). Ou talvez ainda esteja cedo. Aliás, espero que ninguém ligue se eu colocar algumas das nossas próprias músicas neste set list.


Seja como for, não vai tocar blues só no meu funeral. Vai tocar a vida toda, porque, como disse o velho João Silva, em Baby Blue, meu primeiro livro: o blues é o que sobrou de um homem miseravelmente só e angustiado, que perdeu todo o dinheiro e honra para as mulheres fáceis, a bebida e o jogo. Mas o blues, ele disse, não é sinônimo de sua perdição, é a sua redenção, é o que faz com que ele se levante, dia após dia, reunindo forças que não tem, mesmo sabendo que o trabalho injusto quer arrancar seu couro, que ama uma mulher que jamais poderá ter e que o dinheiro pouco que tem não vai dar pra chegar no fim do mês. O blues sussurra em seu ouvido, quando ele baixa a cabeça e pensa em desistir: levante-se homem, porque não existe nada impossível nesse mundo. E ele sorri e segue em frente.


Eu amo esse desgraçado desse Blues!

Um comentário:

Anônimo disse...

Sim, provavelmente por isso e